segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Entrevista: Hamilton Octavio de Souza

Chegou a segunda-feira, e depois de um fim de semana de muito trabalho, tenho 95% da matéria sobre Ensino de Jornalismo no Brasil concluída. Um tema importante e muiito gosto de trabalhar, agora estou na torcida para que alguma pauta caia na revisa e eu conquiste mais duas páginas. Porque no plano inicial minha pauta tem o espaço de tres páginas reservadas, contando textos, fotografias e o nosso infográfico. Mas a riqueza das informações obtidas nos deram a oportunidade de mostrar um panorama dos cursos de jornalismo no Brasil.

Desde já agradeço a disponibilidade de todos os entrevistados, que getilmente nos receberam ou se dispuseram a responder por outros meios aos nossos questionamentos.

A edição da revista deverá ficar pronta até o fim de novembro e então poderei publicar aqui no blog, mas enquanto isso não ocorre deixo na integra entrevista realizada com Hamilton Octavio de Souza, editor da revista Caros Amigos, articulista do jornal Brasil de Fato e Professor da PUC-SP.

1) Em que melhorou o ensino de jornalismo nesses dez anos? A que se deve essa melhora?

Resposta: Ensino do quê? Nível fundamental, médio ou superior? Superior em que área? No Jornalismo? Se é no Jornalismo, não acho que tenha melhorado. Na verdade as escolas estão cada vez mais burocráticas e menos comprometidas com a produção do conhecimento relacionado com a realidade brasileira. Falta pesquisa, falta pensamento crítico, falta liberdade de cátedra. O ensino superior brasileiro está em crise porque está cada vez mais distante das demandas do povo. Os professores estão acomodados e os alunos desinteressados.

2) As universidades brasileiras estão preparadas para ensinar jornalismo e formar um profissional com bom nível de conhecimento?

Resposta: Existem mais de 400 cursos de Jornalismo no Brasil. A maioria pratica estelionato e picaretagem de alto nível. Muitas não têm professores capacitados, outras não dispõem de equipamentos, a maioria não aceita a liberdade de estudantes e professores no desenvolvimento de trabalhos para a boa formação. Existe uma brutal censura nos programas dos cursos, nas bibliografias, nas aulas e nas atividades complementares.

3) As disciplinas da grade currícular são capazes de atender as exigências do mercado?

Resposta: As grades variam de escola para escola. É sempre possível montar uma boa grade, equilibrada entre disciplinas teóricas (de formação humanística) e disciplinas técnicas (de formação profissional). O importante não é atender a exigência do mercado, essa não é a função da Universidade; o que cada curso precisa fazer é formar para o campo jornalístico, tanto acadêmico quanto profissional. O aproveitamento do formado no mercado é decorrência de uma boa formação superior, e não de seu preparo específico para o mercado.

4) O bacharel em jornalismo está preparado para exercer a profissão com competência?

Resposta: Espera-se que bacharel em Jornalismo saiba o que é jornalismo, qual o papel do jornalismo na sociedade brasileira, quais são as atividades próprias do jornalismo e como realizar um trabalho jornalístico. Espera-se que o formado em Jornalismo seja capaz de entender e refletir sobre a realidade, e atuar como jornalista com total autonomia de pensamento.

5) Como você avalia a preparação do estudante de jornalismo que ingressa no mercado de trabalho?

Resposta: Existem vários mercados de trabalho. Ingressar nesses mercados é fácil, mas o mais importante é realizar um trabalho comprometido com as transformações sociais, com a construção de um país mais justo e igualitário. Isso depende muito do local de trabalho, do compromisso social de cada veículo, do espaço de liberdade existente em cada redação. Muitos jornalistas são violentados em suas crenças pessoais e políticas por imposição das empresas e dos patrões. Muitas empresas jornalísticas forçam os jornalistas a fazer o que contraria o código de ética da profissão. Enfim, é difícil encontrar um local de trabalho onde se possa exercer o jornalismo com dignidade e coerência.

6) Existe demanda no mercado jornalistico para a atual oferta de profissionais?

Resposta: O desemprego é grande em todas as áreas profissionais. Os jovens são os mais prejudicados nesse quadro de crise do capitalismo. A existência de desemprego alto faz com que o mercado explore os jornalistas (trabalhadores) e rebaixe os seus salários. Interessa para as empresa que exista um número grande de desempregados, pois a oferta da mão de obra maior que a demanda das empresas, favorece a redução de custo na produção das empresas jornalísticas. Não basta o mercado absorver a mão de obra, é preciso que os trabalhadores (jornalistas) consigam bons salários (ou salários justos).

7) Na revista Caros Amigos vocês têm estagiários? Quantos são?

Resposta: Agora não temos mais estagiários. Temos alguns jornalistas profissionais com maior experiência e alguns estudantes de jornalismo com menor experiência profissional. Todos são contratados como jornalistas.

8) Se sim, qual o nível de conhecimento dos estudantes que trabalham com você.

Resposta: Temos apenas uma estudante de jornalismo trabalhando na Caros. Ela tem o mesmo salário dos outros dois novos profissionais, que se formaram o ano passado. Os demais são profissionais com mais anos de experiência.

9) As últimas notícias impactantes no universo jornalístico que dizem respeito à derrubada da Lei de Imprensa e à queda da obrigatoriedade do diploma. Como fica o ensino do jornalismo atualmente, frente às incertezas que o cercam?

Resposta: O povo brasileiro precisa de uma lei de imprensa democrática, que proteja o cidadão contra os abusos das empresas de comunicação. Uma boa lei de imprensa garantiria de forma rápida e eficiente o direito de resposta - que hoje não é respeitado por nenhum veículo. Os crimes de imprensa precisam ser regulados.

Sobre o fim da exigência do diploma para o registro profissional, espera-se que o congresso nacional faça uma nova lei para regulamentar a questão. A categoria dos jornalistas continua existindo, já existia há 400 anos, no Brasil tem 200 anos, conseguiu conquistas importantes antes da exigência do diploma (como a jornada de cinco horas e o piso profissional), e vai continuar existindo.
Os bons cursos de jornalismo vão sobreviver muito bem, porque as pessoas querem uma formação superior - em muitas áreas, mesmo quando as profissões não exigem isso para o exercício. Então, o fim do diploma interfere pouco na vida da categoria e dos cursos. O que importa é a mobilização e a luta da categoria.

10) Em se tratando não do curso, mas do meio jornalístico, quais foram os avanços nos últimos dez anos? Como o ensino da profissão tem seguido as inovações?

Resposta: Já disse lá no começo que a maioria dos cursos é ruim, não contribui para a formação de jornalistas comprometidos com as transformações da sociedade brasileira.

11) Qual o tamanho do déficit no ensino de Jornalismo no Brasil, a ponto de o STF não julgar necessário a exigência do diploma? Se existem culpados, quem são?

Resposta: O STF está a serviço das empresas de comunicação, faz o jogo do patronato e do capital. Derrubou a exigência do diploma porque interessa para as empresas definr quem pode trabalhar como jornalista ou não. Isso deveria ser função do Estado, já que o jornalismo é um serviço público e interessa para o conjunto da sociedade. O STF deu um presentão aos patrões das empresas de comunicação, pois assim eles podem empregar quem eles quiserem e pagarem o preço que bem entenderem. É a exploração da exploração. Voltamos ao século 17.

12) Antigamente as pessoas eram jornalistas por vocação, e hoje é pura técnica?

Resposta: As pessoas eram jornalistas porque trabalhavam com o jornalismo. Exerciam a profissão. A formação superior apenas adicionou a exigência de um pré-requisito: o diploma de curso de Jornalismo. Isso acontece em muitos países, e é uma garantia a mais de que as pessoas que trabalham nessa atividade pública passem por algum tipo de exigência e compromisso. É uma garantia para a sociedade.

13) Na sua opinião, que Instituição oferece o melhor curso de jornalismo no Brasil hoje?

Resposta: Existem vários cursos de boa qualidade, nos quais alunos e professores fazem uma boa reflexão sobre a profissão, dominam as técnicas necessárias para o desempenho profissional, assumem compromissos políticos e éticos com o desenvolvimento de uma atividade voltada para o conjunto da sociedade, especialmente para construir um mundo melhor.

Hamilton Octavio de Souza.
Jornalista, editor da Caros Amigos e articulista do jornal Brasil de Fato, e professor da PUC-SP.

3 comentários:

Eduardo Passos disse...

Bom dia!
Posso colocar sua entrevista no meu blog? Com os créditos, é claro.
Parabéns!

albinocj disse...

Boa entrevista. O problema é que a Caros Amigos não é exemplo de uma boa revista, igual a Veja. Só mostra um lado da história. Mas, infelizmente, a doutrinação esquerdista que domina as universidades criou o "bem contra o mal" no jornalismo brasileiro.

Enfim, ele falou coisas boas, mas a revista dele não é exemplo de jornalismo comprometido com a sociedade, mas sim, de doutrinação ideológica.

claudemir disse...

Oi...muito interessante a entrevista..deu-me uma compreensão legal..abraçoss